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domingo, 20 de maio de 2012

Soltando o verbo: Mensagem da semana!




Moral da ambiguidade
A infelicidade do homem, disse Descartes, deriva de que ele foi primeiro uma criança. E, com efeito, estas escolhas infelizes que fazem a maior parte dos homens só se podem explicar porque se operaram a partir da infância. O que caracteriza a situação da criança é que ela se encontra jogada num universo que não contribuiu para constituir, que foi moldado sem ela e que lhe aparece como um absoluto ao qual não pode senão submeter-se. Aos seus olhos, as invenções humanas — as pala­vras, os costumes, os valores — são fatos consumados inelutáveis como o céu e as árvores, ou seja, o mundo em que vive é o mundo do sério, já que o específico do espírito de seriedade é considerar os valores como coisas estabelecidas. (...) O mundo verdadeiro é o dos adultos, onde não lhe é permiti­do senão respeitar e obedecer. Ingenuamente vítima da miragem do para-outro, crê no ser dos seus pais, dos seus professores: considera-os como as divindades que estes procuram vãmente ser e cuja aparência se comprazem em imitar diante de olhos ingénuos. As recompensas, as punições, os pré­mios, as palavras de elogio ou de censura insuflam na criança a convicção de que existe um bem, um mal, fins em si, como existe um sol e uma lua. (...) E é nisto que a condição da criança (ainda que possa ser, em outros aspectos, infeliz) é metafisicamente privilegiada: a criança escapa normalmente à angústia da liberdade; pode ser, a depender de sua vontade, indócil, preguiçosa; seus caprichos e suas faltas dizem respeito somente a ela, não pesam sobre a terra, não poderiam perturbar a ordem serena de um mundo que existia antes dela, sem ela, no qual está em segurança por sua própria insignificância; pode fazer impunemente tudo o que lhe agradar, sabe que nada acontecerá por causa disso, tudo já está dado; seus atos não comprometem nada, nem mesmo a si própria. (...) E muito raro que o mundo infantil se mantenha além da adolescência. Desde a infância, já suas falhas se revelam; no espanto, na revolta, no desrespeito, a criança pouco a pouco se interroga: por que é preciso agir assim? A quem isto é útil? E, se eu agisse de outra forma, que aconteceria? (...) E quando chega a idade da adolescência, todo seu universo se põe a vacilar, porque percebe as con­tradições que os adultos opõem uns aos outros, bem como suas hesitações, suas fraquezas. Os ho­mens cessam de lhe aparecer como deuses, e, ao mesmo tempo, o adolescente descobre o caráter humano das realidades que o cercam: a linguagem, os costumes, a moral, os valores, têm sua fonte nessas criaturas incertas; chegou o momento em que será chamado a participar também dessa opera­ção: seus atos pesam sobre a terra tanto quanto os dos outros homens, ser-lhe-á preciso escolher decidir. Compreende-se que tenha dificuldade em viver esse momento de sua história e reside nisso, sem dúvida, a causa mais profunda da crise da adolescência: é que o indivíduo deve, enfim, assumir  sua subjetividade. De certa forma, o desabamento do mundo sério é uma libertação. Irresponsável. a criança se sentia também sem defesa em face das potências obscuras que dirigiam o curso das coisas. Mas, qualquer que seja a alegria dessa libertação, não é sem uma grande confusão que o adolescente encontra-se jogado num mundo que não é mais completamerite feito, mas a fazer, dono de uma liberdade que nada mais prende, abandonado, injustificado. Em face dessa situação nova, que pode ele fazer? É nesse momento que se decide; se a história, que se pode chamar natural, de um indivíduo — sensualidade, seus complexos afetivos etc. — depende sobretudo de sua infância, é a adolescência que surge como o momento da escolha moral: então, a liberdade se revela e é preciso decidir que atitude tomar diante dela. (...) A infelicidade que vem ao homem do fato de ele ter sido uma criança consiste, pois, em que sua liberdade lhe foi inicialmente ocultada e em que ele guardará toda sua vida a nostalgia do tempo em que ignorava as exigências dela.
(...) Existir é fazer-se carência de ser, é lançar-se no mundo: pode-se considerar como sub-homens os que se ocupam em paralisar esse movimento original; eles têm olhos e ouvidos, mas fazem-se desde a infância cegos e surdos, sem amor, sem desejo. Essa apatia demonstra um medo fundamental diante da existência, diante dos riscos e da tensão que ela implica; o sub-homem recusa essa paixão que é a sua condição de homem, o dilaceramento e o fracasso deste impulso em direção do ser que nunca alcança seu fim; mas com isso, é a existência mesma que ele recusa.
(...) Compreende-se facilmente porque, de todas as atitudes inautênticas, essa é a mais frequen­te: é que todo homem foi inicialmente uma criança; depois de ter vivido sob o olhar dos deuses, tendo prometido a si mesmo a divindade, não aceita de bom grado voltar a ser, na inquietude e na dúvida, simplesmente um homem. Que fazer? Em que acreditar? Frequentemente, o jovem que, como o sub-homem, não recusou logo a existência de maneira a que essas questões não se colocas­sem, assusta-se, entretanto, por ter de respondê-las; após uma crise mais ou menos longa, volta-se para o mundo de seus pais e de seus senhores ou então adere a valores novos, mas que parecem também seguros. Em lugar de assumir uma afetividade que o lançaria perigosamente adiante de si mesmo, ele a repele.
(...) A má fé do homem sério provém de que ele é obrigado, sem cessar, a renovar a renegação dessa liberdade. Ele escolhe viver num mundo infantil; mas à criança, os valores são realmente dados. O homem sério deve mascarar esse movimento através do qual se dá os valores, tal como a mitômana, que lendo uma carta de amor, finge esquecer que essa lhe foi enviada por si mesma. Já indicamos que, no universo do sério, certos adultos podem viver com boa fé: aqueles a quem é recusado qualquer instrumento de evasão, aqueles de quem outros se servem ou que são mistifica­dos. Menos as circunstâncias económicas e sociais permitem a um indivíduo agir sobre o mundo, mais esse mundo lhe aparece como dado. É o caso das mulheres que herdam uma longa tradição de submissão e daqueles a quem se chama de humildes; há, frequentemente, preguiça e timidez na sua resignação, sua boa fé não é integral; mas na medida em que existe, sua liberdade permanece dispo­nível, não se renega: eles podem, na sua situação de indivíduos ignorantes, impotentes, conhecer a verdadeira existência e elevar-se a uma vida propriamente moral.
(...) Ao contrário, o homem que tem os instrumentos necessários para evadir-se desta mentira e que não quer usá-los, esse destrói sua liberdade ao recusá-la; faz de si mesmo sério, dissimula sua subjetividade sob a armadura de direitos que emanam do universo ético reconhecido por ele; não é mais um homem, mas um pai, um chefe, um membro da Igreja Cristã ou do Partido Comunista.
(...) É no medo que o homem sério experimenta essa dependência em relação ao objeto, e a primeira das virtudes, aos seus olhos, é a prudência. Ele não escapa à angústia da liberdade senão para cair na preocupação, no cuidado; tudo para ele é ameaça. (...) E dado que não será jamais senhor desse mundo exterior ao qual consentiu em submeter-se, a despeito de todas as suas precauções, será sem cessar contrariado pelo curso incontrolável dos acontecimentos. Sem cessar, declarar-se-á decepciona­do, porque sua vontade de congelar o mundo em coisa é desmentida pelo próprio movimento da vida. O futuro contestará seus sucessos presentes; seus filhos lhe desobedecerão, vontades estranhas opor-se-ão à sua, será presa do mau humor e da acidez. (...) Quer libertar-se de sua subjetividade, mas sem cessar ela ameaça se desmascarar, ela se desmascara. Então, explode o absurdo de uma vida que procu­rou fora de si as justificações que só ela se podia dar. Desligados da liberdade que os teria fundamenta­do autenticamente, todos os fins perseguidos aparecem como arbitrários, inúteis.

(Simone de Beauvoir, Moral da ambiguidade, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1970, p. 29 e segs.)

Beijos a todos!

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